quarta-feira, 12 de junho de 2013

Pat Metheny no Vivo Rio: irretocável

Começo esse texto já sabendo que vai ser difícil. Tinha planejado escrever sobre outras coisas aqui, mas tenho que falar logo desse show. "Irretocável" é pouco, mas faltou achar um adjetivo melhor. Já vi grandes espetáculos que considerei irretocáveis. Vi o U2 dar um show de som e imagem num palco 360 graus no Morumbi. Vi shows fantásticos do Joe Satriani. Vi o gênio Stevie Wonder no Rock in Rio, vi Rush na Apoteose, vi Marillion, vi Eric Clapton... Isso só pra citar alguns exemplos. Mas eu nunca presenciei algo tão impressionante e com um nível de musicalidade tão alto quanto o show do Pat Metheny nesta segunda-feira, no Vivo Rio, pelo BMW Jazz Festival. Sem medo de errar: o melhor show da minha vida!

Não falo tendenciosamente como "fã de carteirinha" (como eu poderia fazer com Knopfler ou Satriani, artistas que de fato conheço bem a fundo e sempre idolatrei). Sou fã do Pat, sim, mas não a ponto de conhecer toda sua obra ou adorar tudo que já ouvi (certamente a partir de agora acompanharei melhor seu trabalho).

Enfim, o show: Pat vem acompanhado de sua "Unity Band", em formato de quarteto, banda com a qual gravou seu último disco e que ganhou um Grammy neste ano. Mas ele não entra no palco com a banda. Chega sozinho e logo de cara pega a "Pikasso Guitar", um violão de 42 cordas feito pra ele que na verdade é algo tipo uma mistura de violão com harpa. O show começa com ele tocando sozinho, já impressionando a plateia, e a banda entra enquanto ele ainda toca o instrumento. Com a banda já tocando junto, se levanta pra pegar a guitarra e logo nas primeira músicas o êxtase é geral. É um improviso atrás do outro, a banda se comunicando quase que telepaticamente, dinâmica descendo e subindo, rítmica absurdamente complexa, chegava a ser assustador... Não dava pra parar de prestar atenção por um segundo. A banda toda é incrível (Chris Potter no sax, Ben Williams no baixo e Antonio Sanchez na bateria) e o Pat ao vivo é literalmente de outro planeta: o domínio harmônico é total, a técnica é impecável, tudo feito sem perder o ritmo. E o mais impressionante: ele desfere milhares de notas sem nunca soar robótico ou excessivamente cerebral (que é algo que me afasta em vários jazzistas). É tudo extremamente musical e melódico, mesmo com a técnica e a harmonia sendo levadas ao limite.

Nem consigo ficar destacando poucos momentos específicos do show, porque foi tudo perfeito e prendeu a atenção do público do começo ao fim. Pat fez duetos com todos os membros da banda (tocando "Insensatez" de Jobim num duo de guitarra e baixo), tocou baladas, deu espaço pra todos os instrumentistas solarem e mostrarem muito talento e, surpreendentemente, levou ao palco também uma parte dos acessórios do seu projeto "Orchestrion" (pra quem não conhece, um trabalho onde ele controla diversos instrumentos diferentes tocados por aparelhos mecânicos através de sua guitarra e de pedais, fazendo "loops"). Com o "mini-Orchestrion" no palco, além da sonoridade incrível de tudo que estava rolando simultaneamente ali, o efeito visual era hipnotizante, com instrumentos que acendiam luzes de acordo com as notas tocadas.

O público não deixava o show acabar e rolaram três "bis". Em um deles, Pat voltou ao palco sozinho e tocou trechos de várias músicas no violão, com um timbre lindo.

O show não cansava, mudava de dinâmica o tempo todo, não deixava ninguém respirar. Além do roteiro que prendia a atenção de forma impressionante, a musicalidade e a técnica eram sobre-humanas. Foram quase 3 horas de música que passaram despercebidas.

Ainda estou sob os efeitos do show. E vai demorar pra passar. Muito genial, muito bonito e muito assustador, pelo nível que esses caras atingiram. Tudo ao mesmo tempo.

Nunca vi nada parecido. E acho difícil que aconteça. Que bom que tive essa oportunidade.
E. Marcolino

PS: Deixo aqui um vídeo que achei no Youtube da música "Are You Going With Me", se não me engano tocada na primeira vez em que a banda voltou ao palco para o bis. Claro que ver um vídeo gravado nessas condições sequer chega perto da emoção transmitida ao vivo, mas vale como recordação.



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